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UMA PÍLULA PARA A INOVAÇÃO

O alerta foi feito por vários médicos, tanto urologistas como psiquiatras: o Viagra e similares não funcionam se o usuário não estiver motivado para “partir pra cima”. O recado foi para os maridos que, desinteressados pelas intimidades da vida a dois, aparecem em consultórios procurando uma receita para a inquietude das esposas. As cobranças muitas vezes atrasam o sono, tão importante para o sucesso no dia seguinte, nos negócios, pelos quais são verdadeiramente apaixonados. Sem desejo o milagre não acontece em casa e a culpa fica entre o médico e o laboratório.

O mesmo se passa com a inovação. Não havendo motivação, interesse, e até uma certa paixão, ela não vai surgir firmemente nas alturas do sucesso. Por outro lado, exige-se um ambiente adequado, que favoreça a abordagem. É o que não acontece no Brasil. Pelo menos foi o que transpareceu até há pouco o recente episódio envolvendo uma outra pílula, a “pílula da USP”, anunciada como a cura do câncer.

Especulações à respeito da eventual eficácia do composto químico são todas uma perda de tempo. Porque só uma confirmação científica terá valor. O que interessa é o enredo desse romance, onde o desencontro de informações até agora tende à conclusões precipitadas, trágicas como as de Romeu e Julieta. No lugar do sonho intenso, do raio vívido, o cenário que prevaleceu foi do berço esplêndido, o “toma que o filho é teu”, burocrático e descomprometido.

VAI ESPERAR MAIS O QUÊ!?

Em histórias de amor um ícone recorrente do desejo é Bruna Lombardi, ainda que sexagenária. Em inovação, a cura do câncer é o ícone do desejo há muito mais tempo. Desta vez, ela não foi anunciada num terreiro, numa “garrafada” de um caboclo, nem numa fórmula secreta de algum amador, cheio de boas intenções e esoterismos. Foi um professor da universidade mais conceituada do Hemisfério Sul que estudou e desenvolveu o composto químico em questão. Um professor de carreira científica completa, muitos trabalhos publicados, conceito elevado. Não é médico, é um químico. Profissão responsável pela criação de grande parte dos medicamentos que utilizamos. Por isso, mesmo não tendo esse viés farmacêutico na carreira, o professor buscou todo o embasamento científico para suas afirmações, que não se aprofundaram nos detalhes médicos.

Tudo isso não representa quase nada para se afirmar algo sobre a eficácia do composto. Mas, com certeza, é muito mais do que o mínimo necessário para se pôr o invento à prova. O que até agora ninguém tinha pensado. Enquanto isso, durante anos, centenas e centenas de pessoas procuravam o Instituto de Química da USP, em São Carlos, onde o professor trabalhava. E foram essas pessoas que fizeram a fama que a pílula sustenta até hoje, inclusive dentro dos mais respeitados tribunais brasileiros. Mesmo assim, a discussão continua centrada no passado, o que foi feito de errado, o que deveria ter sido feito. O futuro, que é o tempo da inovação, até a semana passada nem existia para essa trama.

UM PASSO NA DIREÇÃO CERTA

Há uma semana o Ministro Marcelo Castro, da Saúde, deu prazo de dois meses para um grupo organizar toda a agenda de testes clínicos e pesquisas necessárias para responder, cientificamente, se a Fosfoetanolamina Sintética (é o nome do composto) pode ser considerada um medicamento para o tratamento do câncer. Mais uma vez, estourou na mão do “governo”. Esse ente quase abstrato, centro de tantas demandas neste país, tem que ser o cupido, o padre e o pai da noiva em muitas ocasiões. É o responsável por tudo! A própria USP, através de seu Reitor, se preocupou em responsabilizar civil e criminalmente os que tivessem contribuído para a distribuição de um composto, sem registro na Anvisa, anunciado como remédio. Mas esqueceu de terminar a pesquisa que foi iniciada dentro da própria universidade. Uma pesquisa que teve o grave inconveniente de ter dado certo. Tivesse falhado, seria muito melhor. Os relatórios teriam descrito as reações adversas e tudo estaria esquecido numa hemeroteca qualquer, sem incomodar a rotina tradicional.

Para inovar, assim como nas histórias de amor, tem que haver um certo atrevimento. Não precisa ser a tara que alguns participantes da pesquisa em causa demonstraram. Mas não vale persistir somente no pleito primário do paternalismo governamental. No caso da “fosfo”, apelido dado à substância, no ambiente científico quase ninguém acredita que seja a cura do câncer. Mas se for um protagonista a mais nessa conquista, já será uma grande e valorosa inovação. Caso contrário, será uma experiência importante. Por enquanto, um efeito significativo já pode ser anotado: a fosfo demonstrou que o Brasil está precisando de um “Viagra” para os processos de inovação. Revivendo os momentos universitários, uma adaptação pudica pode ser simbólica: “Sem tesão, não há solução”.

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