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NEM LENÇO, NEM LUVAS DE PELICA

Tem aquele garoto que mostra um monte de chocolates na lancheira e diz que só vai distribuir para quem for do time dele. Tem o que grita que a bola é dele e sem ele não tem jogo. Tem ainda aquele que lembra que o campinho é no quintal da casa dele, por isso ele mora no jogo. E tem o Trump, senhor do maior mercado do mundo, que resolveu impedir a Huawei de vender qualquer coisa lá.

 

Crianças são mais autênticas do que os adultos. E como Trump não pode parecer um reles menino ruim de bola, está acusando a Huawei e outras gigantes chinesas de TIC – Tecnologia da Informação e Telecomunicações – de serem espiãs. Por sinal, tudo começou pelas acusações de espionagem. Prosseguiu com a “recomendação” para os funcionários do setor público não utilizarem celulares chineses, depois proibiu órgãos do governo de adquirirem produtos e serviços de lá. Até que, pela Lei de Segurança Nacional americana, praticamente impediu a Huawei, líder mundial na tecnologia 5G, de vender nos Estados Unidos.

 

Se há alguma inteligência nessa estratégia, ou se ao menos há estratégia conduzindo essas atitudes, ainda não dá para vislumbrar. Os Estados Unidos estão usando o poder – que, de fato, têm – da forma que jamais se imaginou que fariam. Nada sutil, entrou como um elefante numa loja de cristais.

 

Na semana passada a Huawei divulgou comunicado sobre o afastamento imposto a ela pela Wi-Fi Alliance e pela SD Association. São duas organizações não governamentais, sem fins lucrativos, voltadas à certificação e padronização de TICs. Essas associações não têm bandeira. Teoricamente! Foram criadas para aproximar comunidades de código aberto, para gerar alianças industriais de cooperação. Atuam na padronização e desenvolvimento de normas de interesse das indústrias e consumidores.

 

Nenhuma delas fez qualquer acusação sobre descumprimento de normas associativas por parte da Huawei. Mero cumprimento da ordem executiva do presidente Trump ou, como diríamos aqui no Brasil, sinal de instrumentalização dessas entidades por parte do governo americano. Esses ataques devem gerar os prejuízos previstos contra os chineses. Mas do outro lado da balança transformam a indústria mandarim numa vítima de sua própria competência. Num balanço, de quem seria o maior prejuízo?

 

O PODER FALA MAIS ALTO

 

A extensão do poderio americano é muito grande para ser exposta tão vulgarmente numa guerra comercial. O IEEE – Institute of Electrical and Electronic Engineers, uma entidade internacional com a visão de ser “essencial para a comunidade técnica global e profissionais técnicos em todos os lugares…”, só suspendeu as restrições à Huawei após ser liberada pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. É verdade que o IEEE foi criado nos EUA em 1963, pela junção de outras entidades locais. Mas, a partir de então, assumiu uma posição internacional autônoma. Muitos engenheiros chineses são sócios da entidade, assim como brasileiros, sauditas, japoneses e de todas as nacionalidades.

 

O instituto se viu numa saia justa com a decisão de Trump, uma vez que o cumprimento das leis americanas é dever de todos os engenheiros cidadãos americanos. Talvez o impensável, até então, seria uma medida tão drástica antes que qualquer prova da alegada espionagem chinesa embeded tenha sido apresentada.

 

Enquanto isso, o governo de Pequim continua fazendo de conta que não está vendo nada disso. Nem a cidadã chinesa, herdeira da Huawei, que está presa no Canadá a pedido da justiça americana. Essa sim, parece ser a estratégia. Enquanto esgrima diplomaticamente outras retaliações americanas, impostas através de tarifas de importação, o governo chinês demonstra uma atitude pacífica, limitada ao revide, como uma legítima defesa. E para o mundo permanece a dúvida sobre qual seria o pecado mandarim para merecer tantos ataques.

 

O que Trump parece desconsiderar é que os Estados Unidos não nos acostumaram apenas a assistir às vitórias que vêm conquistando em todos os desafios globais. O tio Sam tem impressionado mais pela forma como vence, com elegância, com respeito ao adversário, exaltando a ética. É este o grande peso da liderança americana, que pode estar sendo eclipsado por uma solução de ocasião.

 

Por outro lado, a questão concreta que parece se impor é a temida liderança tecnológica chinesa na área mais sensível do mundo, exatamente a TIC. Tudo é atingido pela informática e qualquer coisa pode ser transformada, da noite para o dia, por um algoritmo convenientemente embarcado. O governo americano sabia disso o tempo todo e não se precaveu quanto à concorrência internacional. As consequências estão aí e a alternativa que Trump está tentando não mostra como pode se transformar numa solução.

 

O BRASIL MANTÉM O PRAGMATISMO

 

Aqui no Brasil a tecnologia chinesa, por enquanto, está bem à vontade. Na semana passada, por ocasião do lançamento da primeira loja brasileira da Xiaomi, cenas de autêntico frisson foram reportadas no site UOL. Uma fila se formou à espera da abertura das portas da loja, no Shopping Ibirapuera, em São Paulo. Os primeiros a entrar esperaram por dois dias na fila.

 

A marca capitalizou o momento de chegada com ofertas tentadoras para seus celulares de ponta. E foi além, apresentando vários outros produtos, de vestuário até bicicletas. Marketing com requintes de capitalismo dominador.

 

No mês passado, durante o Painel Telebrasil 2019, foi um diretor da Huawei no Brasil, Carlos Lauria, que se referiu ao boicote americano como um fator de aproximação da empresa com os clientes daqui. Grandes operadoras de telefonia, por exemplo, pressionadas pela situação, precisaram se posicionar sobre equipamentos e serviços da marca. Não poderiam dizer outra coisa que não fosse elogios, uma vez que a Huawei está presente em larga escala em seus sistemas.

 

O potencial desgaste do governo Trump pode repercutir em outras instituições americanas de peso. A Huawei, mesmo sem algum dia ter ensaiado no estado chinês, está movendo processos na justiça americana contra o governo. As chances de vitória parecem ser boas, segundo o advogado Glen Nager, contratado para representar a empresa. Segundo o site Teletime, Nager considera que as medidas de segurança nacional aplicadas contra uma empresa privada, sem nenhuma prova apresentada até agora, violam frontalmente a Constituição dos EUA. Por isso acredita que um julgamento sumário, mais simples e mais rápido, seja o suficiente para reafirmar os direitos da Huawei em solo americano.

 

Até o final de 2019 essa contenda promete muito alvoroço nas discussões legais. Porém, em se tratando de tecnologia digital, nunca se pode desprezar a possibilidade de os Estados Unidos aparecerem com uma nova solução disruptiva para conexões móveis. Foi assim com a TV digital. Os EUA foram pioneiros porém, com uma tecnologia tímida. Mas pouco depois apresentaram os sistemas mais completos para o setor.

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