sexta, 02 de fevereiro de 2018

ISSO NÃO É DA SUA CONTA

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Vizinha fofoqueira é um personagem garantido quando se tenta caracterizar um bairro, um ambiente social. Pelo menos nas séries de TV, desde os anos 60, nunca se esqueceram delas quando baseadas em estórias do cotidiano.

A Clips, câmera que o Google colocou à venda no último final de semana nos Estados Unidos, é quase a versão high tech do personagem tão inconveniente. Ela tem o tamanho aproximado de duas caixas de fósforos e é dotada de inteligência artificial – possivelmente comparável à inteligência de quem se dedica a bisbilhotar a vida alheia – para começar a colher imagens automaticamente.

A inteligência artificial, segundo o fabricante, vai identificar “momentos genuínos” do seu dia a dia. Ela identifica rostos e caras – de animais, no caso – e, ao longo do tempo vai “entendendo” quem é mais importante para você e como esses personagens se comportam mais comumente. Com base nesses dados a Google Clips vai estabelecer os “momentos genuínos” para disparar sozinha as próprias gravações. Normalmente, são vídeos de 7 segundos.

Com certeza esses recursos vão ajudar a obter momentos muito especiais do seu bebê, ou seu pet, e outras situações que, até então, dependiam de muita sorte e presença de espírito para serem registradas. Mas deve melhorar também a sorte de “arapongas” ocupados em investigar a intimidade dos outros. É só receberem a câmera do eventual interessado, com a memória suficientemente abastecida de dados a respeito da vítima a ser invadida. A criatividade típica dos fofoqueiros deve prever muitas outras formas de uso para um gadget desses.

Não se trata de acusação. Mas será que essa ideia surgiu numa inspiração mais do lado de quem quer imagens surpreendentes do bebê, ou do outro lado do muro, da vizinha fofoqueira? Durante todo o desenvolvimento do aparelho, quantas vezes essas questões estiveram presentes?

Em tempos de ultra exposição em redes sociais, fotos e vídeos instantâneos, parece que a indústria cibernética está descobrindo a fofoca como mais um grande negócio.

Esse é o lado divertido do desenvolvimento desses brinquedos. Mas é bem provável que essas criações sejam apenas novos arranjos de tecnologias utilizadas em situações nada divertidas.

ISSO VAI MUDAR A SUA CONTA… NA REDE SOCIAL

Há quase 30 anos um consultor, encarregado de reestruturar toda a comunicação interna em uma planta industrial de grande porte, surpreendeu a equipe de apoio que o acompanhava na visita ao chão de fábrica. Ele olhou os quadros de avisos, os cartazes, mas também teve o interesse em conhecer cada um dos banheiros do pessoal da produção. Ele queria saber o que as pessoas que trabalhavam ali queriam dizer aos outros quando se sentiam na intimidade daquele espaço sanitário. Estava nos desenhos, nas frases escritas na tampa das privadas, nas portas e paredes.

Já houve outras mídias populares que carregavam algumas mensagens interessantes, como os para-choques de caminhões. Menos anônimos, o que costuma ajudar na qualidade do que é apresentado. Os corações e as juras de amor aparecem cada vez menos nos espaços populares, o povo manifesta mais interesse em protestar raivosamente.

Que o diga a TV Globo! Resolveu abrir um espaço na programação para levar ao ar os protestos de brasileiros de cada cidade do país. Quinze segundos para dizer “que Brasil eu quero para o futuro”. Sim, é uma clara incitação ao protesto. Porém, ao pedir que os brasileiros caracterizassem ao fundo da gravação a cidade onde moram, muitos protestos se voltaram contra a emissora, que estaria “interessada em mostrar o lado bonitinho das coisas”. Não se fala no quanto a caracterização do local ajuda na repercussão do protesto. Enfim…

Tudo isso deveria começar a se disciplinar com o surgimento das redes sociais. Tinham tudo para ser o local ideal para todas essas manifestações. Mas inventaram os perfis falsos. Mais do que isso, inventaram doutores, beneméritos e outros fidalgos que postam mensagens pedindo para que repassem. E lá se vão recomendações absurdas e perigosas, como tratar queimaduras com farinha de trigo. Apelos baseados em fotos chocantes, pedindo para ajudar no tratamento de uma criança enferma. Como? Simplesmente repassando. Um conjunto de armadilhas e bobagens, que cheiram bem pior do que os banheiros mais sujos das fábricas.

Por isso o Facebook está lançando uma campanha. Começou na segunda-feira da semana passada, apresentando os seus “Princípios de Privacidade”. E deve continuar com a publicação de uma série de vídeos no feed de notícias dos usuários. Prevê ainda a criação de um Centro Global de Configurações de Privacidade, cuja primeira missão será criar um único local para que cada um possa definir claramente onde e quais dados pessoais podem ser usados.

Não por acaso o anúncio desse Centro foi feito num evento em Bruxelas. A partir de abril começa a valer, nos 28 países da União Europeia o GDPR, um regulamento de proteção de dados. É o primeiro tão abrangente no mundo e deve ser um novo marco na Internet.

TODOS PAGAMOS A CONTA

No fundo dessa questão pode estar a surpreendente capacidade de ataque que um ser humano tem, quando dispõe de instrumentos para tal. A Internet, a rede social, a tampa da privada, são apenas alguns desses instrumentos. Mas podem ser também caminhões, carros, bombas. E então uma única pessoa pode se tornar uma ameaça para a segurança de uma nação.

Haverá os que fazem em protesto, os que apenas querem se divertir, os que queriam brincar mas erraram ao medir as consequências. O jeito é se proteger o máximo possível de todos eles. Uma verdadeira guerra, que passa a ser a “situação nada divertida” onde possivelmente surgiram tecnologias para invadir privacidades. Pois é na privacidade de um único homem que pode estar uma grande ameaça.

A história mostra que a guerra se tornou um grande propulsor do progresso tecnológico. Foi dela que surgiu, por exemplo, o protetor solar. E até a própria Internet. Por que não as câmeras inteligentes?

A privacidade, enquanto valor pessoal, está perdendo para a segurança, enquanto valor social. Como todo ser humano é social e indivíduo, trata-se de escolher o que aceitaremos perder.

Tudo indica que a tecnologia deve trazer, cada vez mais rapidamente, instrumentos muito úteis para todos. Ao mesmo tempo, essa utilidade toda pode ter aplicações nefastas, quando mal utilizada. Você vai precisar pensar “que mundo eu quero para o futuro”. Afinal, o poder de transformarmos para melhor, ou para pior, vai crescer para todos.


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