sexta, 01 de dezembro de 2017

O BITCOIN VAI ENTRAR NO JOGO

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Bitcoin é uma palavra que hoje lembra dois excessos: muito dinheiro e muita dúvida. No último mês de agosto um artigo deste blog chamava a atenção para a oportunidade de ganhar muito dinheiro “nos próximos meses” com as moedas virtuais, ou criptomoedas, nome mais em moda no momento. Não deu outra. Elas estão valorizando até hoje e, nas próximas semanas, podem dar outro salto. É quando devem ser lançados os contratos futuros de bitcoins na CME, a Bolsa de Mercadorias de Chicago, a maior do gênero no mundo. Isso vai fazer os bitcoins ganharem um novo status no mercado e então… mais dúvidas.

Só neste ano o valor do bitcoin, até agora, multiplicou por 10. Nenhum outro tipo de investimento teve um desempenho próximo a isso. E sabe qual o motivo dessa valorização? Eis aí uma grande dúvida. Ninguém sabe dizer exatamente.

Quem atua no mercado financeiro sabe que, para avaliar um investimento qualquer, existem dois tipos de análises: a análise de fundamentos e a técnica. No caso de uma ação, os fundamentos são os lucros ou prejuízos da empresa, a variação do patrimônio, como está crescendo o ramo em que ela atua (remédios, alimentos, petróleo, metalurgia, etc), esses dados mais concretos do negócio. Atualmente, qual seria um fundamento para analisar o bitcoin? Praticamente não existe.

A análise técnica simplesmente reflete o histórico das reações do mercado. Por exemplo, no histórico das grandes bolsas do mundo, talvez nunca um tipo de investimento qualquer tenha engatado tantas altas seguidas como os bitcoins. Mas os bitcoins nunca foram negociados em bolsas. Vão “debutar” em Chicago, só então vão entrar no mercado pra valer. A alta prevista de imediato deve ser consequência do grande número de investidores que tendem a experimentar o novo negócio da bolsa. O que eles vão achar e como vão reagir é o que deve selar o futuro das criptomoedas.

O MERCADO, ESSE GRANDE CASSINO

Como os investimentos em geral, bitcoin é algo que a maioria das pessoas não sabe como funciona. Mas alguém em quem você confia, como o gerente do banco, num belo dia liga e diz: “- O swap de câmbio tá bombando! Acho que vale investir um dinheiro nisso.” E lá está você, com o seu nome na clearing da BM&F, como investidor em contratos. No fim do mês é creditado um dinheiro na sua conta e você comemora o tal do swap de câmbio, que continua um completo desconhecido.

As bolsas, na prática, são um grande cassino, um balcão de apostas. A diferença é que elas mantêm sistemas de negociação que tornam muito seguro o recebimento do prêmio para quem apostou certo.

Por exemplo, os contratos futuros, na prática, são apostas baseadas em preços imprevisíveis, como os das commodities, matérias primas negociadas em grandes quantidades. O café, por exemplo. Ou o boi gordo, ouro, minério de ferro, soja, açúcar e muitos outros. O investidor pode escolher a commodity e de que lado ele quer apostar. Pode entrar “comprado” ou “vendido”.

Quem entra do lado “comprado” aposta na alta e, quando o preço sobe, recebe a diferença. Se o preço cair, ele paga a diferença para a outra parte do contrato, o “vendido”. O “vendido” é quem apostou na queda do preço, por isso recebe a diferença quando o preço cai e paga para a parte comprada quando o preço sobe.

Por isso, valores que tendem a manter estabilidade não interessam para as bolsas. Elas vivem das oscilações, das surpresas que este ou aquele valor pode trazer durante a semana. Simples assim. A moça do tempo disse que vem uma frente fria para o sul de Minas Gerais – a maior região produtora de café do mundo – e “pode” gear. A cotação do preço futuro do café sobe. Na outra semana, o instituto de meteorologia informa que a geada acabou não acontecendo, o preço futuro do café cai. Para o mercado do café o clima é um fundamento. Os relatórios sobre estoques do produto são outro, entre vários fundamentos.

A análise técnica, fica focada no histórico do comportamento do mercado, no “humor” dos negócios. Ela pode fazer o preço variar por motivos que não tem nada a ver com o mercado daquela commodity. Por exemplo, se o preço futuro do café já subiu vários dias seguidos, a tendência é de que as posições compradas sejam muito negociadas, porque os donos dessas posições querem fazer lucros dessa alta. Não mudou nada nas fazendas, nem nas torrefações ou no varejo do café. Mas o aumento da oferta de contratos comprados de café fez os preços futuros caírem, sem nenhum motivo real para isso. É aposta ou não é!?

Num jogo desse tipo, algo tão imprevisível como bitcoin cai como um ás de ouro numa mesa de baralho.

AGORA VAI SER COM OS GRANDES

Nessa primeira década de existência do bitcoin ele está valorizando por vários supostos motivos. Ninguém pode afirmar exatamente por quê o mercado está reagindo assim. Mas um dos motivos deve ser a confirmação da segurança do sistema. Um bitcoin – ou uma outra criptomoeda qualquer – é um par de chaves de criptografia. Uma chave de criptografia é somente uma sequência aleatória de algarismos. No caso dessas moedas, uma é a chave pública, que qualquer um pode ver. A outra é a respectiva chave privada. Essa só o dono sabe qual é.

O algoritmo que criou esse sistema é baseado em blockchains, que são redes p2p de computadores, formadas por quem baixa o aplicativo. As pessoas que estão nos “nós” dessa rede são escolhidas aleatoriamente pelo sistema para checar operações que acontecem com a moeda no mundo. É o próprio sistema que também faz a distribuição das operações a serem conferidas. Por isso não tem como disseminar um vírus ou trojans que infestem toda a rede. Até porque cada nó é trocado periodicamente, é gente que entra e que sai. Uma criptomoeda é, portanto, uma “coisa” que ninguém tem igual e pode ter a autenticidade comprovada por um sistema.

Registros recentes dão conta de que existem mais de 1.300 criptomoedas no mundo, o bitcoin é só a mais famosa entre elas. E mesmo com tantas delas, o valor total que elas somam ainda é muito pequeno, perto dos outros investimentos mais tradicionais. Praticamente só pequenos investidores, pessoas físicas, negociam essas moedas em pequenas corretoras. Uma fração mínima dos investimentos no mercado de ações, se migrar para as moedas virtuais, vai representar um salto expressivo nas cotações.

Por isso, toda essa expectativa! Ao entrar no mercado, sendo negociado na Bolsa de Chicago, o bitcoin passa a ter uma garantia aceita universalmente. Vai aparecer num portfólio que circula entre grandes investidores. O que eles vão achar disso, só o tempo dirá. Muita gente prevê que o bitcoin deve valorizar até formar uma bolha de mercado, um valor superestimado. Mas ninguém arrisca dizer quando isso pode acontecer. Pode ser em um mês, ou demorar anos.

Por enquanto, o aumento do valor do bitcoin não pode ser analisado do ponto de vista mercadológico, ou seja, é o aumento da procura por pequenos investidores que faz a cotação variar. O “fundamento” que começa a permitir uma análise mais objetiva é a aceitação pelo mercado. No Japão já é uma moeda aceita no comércio. Entrando na Bolsa de Chicago, fica mais negociável. O Amazon.com dá sinais de que vai passar a aceitar o bitcoin. Tudo isso começa a trazer fundamentos mais sólidos para esse mercado das moedas virtuais.


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