sexta, 29 de dezembro de 2017

AS DECISÕES E O DESTINO

VoandoAlto620

Mais uma vez, foi a televisão aberta. A tarefa mais complexa das telecomunicações brasileiras em 2017, do ponto de vista operacional, era o desligamento do sinal analógico de TV. Aconteceu com sucesso nas principais regiões, superou os gargalos e, daqui em diante, tende a transcorrer com tranquilidade.

No Brasil a televisão aberta tem tradição no quesito “fazer acontecer”. E é um setor todo movimentado pela iniciativa privada. Do ponto de vista das ações de governo nessa jornada, o destaque cabe ao ex-Ministro Ricardo Berzoini. A despeito das críticas que alguns possam ter em relação a esta ou aquela medida, em seu tempo Berzoini sentou-se à mesa para fazer acontecer. Tinha uma proposta mas também ouviu, ponderou e decidiu. Cumpra-se! Com o novo governo, Gilberto Kassab pouco teve como interferir no caso.

Decisão foi tudo o que faltou em outro tema de relevância das telecomunicações neste ano. A recuperação judicial da Oi foi um fantasma que assombrou o Executivo, o Judiciário e o mercado. Tanto que, até agora, não apareceu um nome para assinar como dono da situação.

Curiosamente, o que parece ter sido decisivo para o primeiro passo – a aprovação do Plano de Recuperação pelos credores – foi justamente a unanimidade em torno do que seria o “inimigo a ser superado”. O empresário Nelson Tanure, da Societè Mondiale, empresa sócia da Oi, entrou em todas as brigas que pôde e assim incorporou essa unanimidade. Em função disso, os outros players parecem ter acreditado que só um consenso poderia salva-los. Agiram por auto preservação.

Freud certamente teria mais a acrescentar. Porém, o apoio psicanalítico vai ser muito mais importante daqui para frente. Muito do que foi acertado ficou condicionado a mudanças que ainda não aconteceram. E o Governo Federal, através da Anatel, vai levar sua crise de identidade para o divã judicial. Mesmo torcendo pelo acordo, votou contra. Vai à Justiça para pedir que seus haveres fiquem fora do que foi pactuado. O entendimento é de que a lei prioriza as dívidas com o Governo, que não podem ser incluídas no rol de credores privados.

Essa postura de sacralidade, uma vez aceita, vai complicar mais ainda o recebimento por parte da Anatel. E corre o risco de prejudicar seriamente os outros termos do acordo. Entenda como quiser, mas governo é governo.

E ENTÃO, COMO FICA?

Uma questão aparentemente subliminar em relação ao acordo da Oi pode se tornar, do ponto de vista histórico, o principal fato desse episódio. É o controle acionário da empresa.

Existe a possibilidade de uma pulverização das ações ordinárias, o que tende a descaracterizar os esforços que deram origem à Oi. Ela surgiu como resposta a uma necessidade de soberania nacional. É fundamental que um país com o tamanho do Brasil conte com uma grande operadora de telecomunicações, cujo controle acionário seja brasileiro. Claro que esse argumento foi usado indevidamente para beneficiar espertos. Mas isso não o torna menos verdadeiro.

As telecomunicações são estratégicas desde o tempo do telégrafo. Mas, hoje em dia, fazem parte de tudo que acontece com cada um dos terráqueos. A tecnologia envolvida é muito mais complexa do que no passado, e fica mais complicada a cada dia. Mais cara. Mais instável. Portanto, muito mais estratégica.

Agora sim, uma questão concreta de identidade a ser seriamente considerada: que país queremos ser?

Essa resposta passa por outro assunto momentoso. É o interesse da Boeing pela Embraer. Diferentemente das telecomunicações, na indústria aeronáutica o Brasil construiu uma sólida capacidade tecnológica, reconhecida mundialmente. Não é à toa que a maior empresa do mundo no setor está interessada.

Essa capacidade tecnológica não foi conquistada em um ano, nem em uma década. Foi muito tempo até se chegar a um patamar de excelência, totalmente sustentável. Somos exímios fabricantes de aeronaves. Todas as outras tecnologias embarcadas são importadas, como turbinas, instrumentos, comunicações. Mas o principal é a parte “voadora” dos projetos.

Não há qualquer ufanismo nessa questão. A aviação é hoje o principal diferencial de defesa. Por isso a Boeing tem relações íntimas com o Governo Americano. No episódio da venda de caças para a FAB manifestou interesse, mas ficou claro que não haveria transferência de tecnologia.

Uma indústria tão excepcionalmente cara como a aviação militar precisa do mercado civil para manter seus projetos. E, no segmento de aviação regional, a Boeing ficou para trás, depois que a europeia Airbus tomou conta da canadense Bombardier, principal concorrente da Embraer. Este será o lugar definitivo e inescapável da Embraer nas mãos da Boeing: aviação civil regional.

A Boeing está preocupada com a aviação regional nos Estados Unidos, um mercado que cresceu muito rapidamente. As aeronaves de que ela dispõe não são competitivas, porque privilegiou outros projetos. Ora, se o discurso do momento é o livre mercado, a abertura econômica, a valorização da competência, então que se abra o mercado americano ao melhor fornecedor: a Embraer. Por que isso só pode acontecer se a empresa tiver capital americano? Não seria excesso de nacionalismo.

UM LUGAR AO SOL

O empresariado brasileiro precisa ter coragem para concorrer. Não precisa brigar para isso, o quê estaria mais para uma expressão de ódio. Mas precisa lutar, isso significa competir dentro de regras, para atingir objetivos nobres. Demanda muito esforço, mas a bravura é o grande diferencial dos vencedores.

O Governo Brasileiro já entendeu que passou a fase de colocar o estado como único empreendedor capaz de superar grandes desafios. Foi útil para fazer surgir, dentre outros, a Embraer, o Sistema Telebrás. Nesse último caso, a privatização embarcou na cantilena da modernidade econômica. Essa mesma que Donald Trump rechaça veementemente. Sobrou para o cidadão fornecedores de serviços pouco eficientes e caros. Além da necessidade de inventar um fornecedor nacional, a Oi, que dispensa comentários.

No caso da Embraer ninguém acreditava que brasileiro fosse capaz de gerir a fabricação de aviões de qualidade, dentro das regras de mercado. O arremate acabou sobrando para investidores daqui, que deram conta do recado muito bem. Não há porque reverter essa sorte que o destino nos reservou. A história da empresa mostra que ela cresceu, na medida em que as próprias aeronaves cresceram. Esse é o futuro que ela tem pela frente.

Parece muito pouco provável que a Boeing queira associar a marca dela ao nome Embraer. Que queira ser a menor, dentro da menor. Isso pode acontecer num momento inicial, para passar pela porta. Depois, não deve ser nada confortável ter um gigante tão poderoso dentro de casa. A sabedoria mineira já dizia, “passou boi, passa a boiada”.

O capital estrangeiro é muito bem vindo na Embraer. E virá, uma vez que estamos falando de uma empresa de alto nível, consolidada no mercado. Que esse capital venha de empresas de outros setores. Fundos de pensão internacionais, bancos e muitos outros tipos de investidores não concorrentes.

Esta, possivelmente, será para o Brasil a marca histórica de 2017: o ano em que a decisão mais importante começou a exigir uma resposta definitiva.


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